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O "amor romântico" e a fase da adolescência, a fase menos inteligente das nossas vidas :)

Domingo, 02.09.18

 

 

Hoje de manhã acompanhei o programa "O Amor é" onde se falou no "amor romântico" e em "românticos incuráveis" :)

Com a idade aprendi a ver o amor para além de todos os romantismos e ciúmes. Como uma espécie de afinidade e cumplicidade luminosa e primordial. E ao aprender a ver assim o amor, percebi que essa visão do amor me era já familiar.

O problema que nos acontece na vida é a adolescência, essa fase de transformação que nos torna "românticos" :) Até aí somos praticamente controlados pela razão. O que nos motiva é a descoberta do mundo e das pessoas, mas não nos fixamos numa particularmente e de forma obsessiva :)

Este descontrole só passa com a idade e a experiência. Em vez de idealizarmos o outro, vêmo-lo como ele é. E o que ele é, é muito melhor do que a nossa idealização ("romantismo"). A fantasia dá lugar à verdade.

 

O amor e a verdade é muito mais forte do que o amor que necessita de fantasiar. Nunca se apaga, mantém a claridade e o calor.

Em vez de ciúme (outro tema abordado no programa), quem ama fica apenas triste, por respeitar o outro. Ninguém tem o direito de limitar alguém, de o travar no seu percurso, de o diminuir. Pelo menos, no amor como o vejo hoje, e como, muito provavelmente, terei visto antes de me passar por cima a fase adolescente, isto é, a fase menos inteligente das nossas vidas :)

A tristeza de ver alguém partir mistura-se estranhamente com a esperança de ambos sermos felizes à nossa maneira. Pode parecer demasiado frio e distante, mas é a melhor forma de amar.

 

E um dia "fazemos o ninho" noutro lugar, talvez noutra latitude, talvez de uma forma totalmente nova para nós.

Na verdade, a nossa felicidade e bem-estar não devem depender da companhia do outro, mas da confiança de viver de forma consciente e equilibrada.

 

E é por tudo isto que nunca conseguirei escrever um best-seller sobre o amor :)  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:08

Directas do PSD: para regressar ao futuro (reinventar) é preciso regressar ao passado (clarificar)

Sábado, 06.01.18

 

 

O primeiro debate das Directas do PSD veio confirmar a análise que tinha alinhavado dos perfis dos dois candidatos, e acentuar alguns traços de forma inequívoca.

Também deixou a necessidade de clarificar o que se passou realmente no governo de Santana Lopes. Alguns comentadores, que são jornalistas, não gostaram deste regresso ao passado. Já perceberemos porquê. Mas para regressar ao futuro é preciso regressar ao passado, isto é, para reinventar (mote do discurso presidencial) é preciso clarificar.

Seria absolutamente inadmissível manter o equívoco "trapalhadas", e uma injustiça tentar passar uma esponja sobre o golpe presidencial de 2004. Mas é o que Rui Rio quer, o que o PS quer, o que os jornalistas desse tempo querem, o que até Cavaco quereria, o filósofo José Gil e outras personagens Porquê?

Porque todos, socialistas, os media, o artigo cavaquista, o livro do filósofo, e outras personagens fizeram parte da armadilha socialista.

Acompanhei os jornais da época, sobretudo quando começou a campanha diária contra o governo. Na altura os media tinham uma influência muito maior do que hoje. Não havia nada que reequilibrasse a informação, que clarificasse a agenda dessa informação. Mas hoje isso já não é assim. As redes sociais vieram permitir a troca de informação e opinião entre cidadãos, em tempo real. Compreende-se o desconforto dos políticos relativamente ao papel das redes sociais, veja-se o caso da lei do financiamento dos partidos.

Hoje a preparação da queda de um governo de coligação estável, como aconteceu em 2004, não seria possível. A preparação, também nos media, da personagem socrática, também não seria possível.

Os militantes do PSD mais jovens não acompanharam essa campanha mediática diária anti-governo. O termo "trapalhadas" surgiu no parlamento pela bancada do PS. e a partir daí foi generalizado de forma intencional.

Após o golpe presidencial, inicia-se a preparação mediática da personagem socrática, o determinado, o moderno, o visionário. Seria interessante e clarificador que os jovens militantes do PSD também lessem os jornais dessa fase. É por isso que alguns jornalistas hoje se sentem incomodados em ter participado nessa ficção e na deturpação da realidade política.

 

Quando no debate Rui Rio insiste que houve "trapalhadas", que Sampaio "teve razão só que podia ter esperado mais tempo" (!?), e que Santana "deu a única maioria absoluta ao PS", mantém o primeiro equívoco injusto ("trapalhadas") e acrescenta-lhe mais dois em cima: a legitimidade do golpe presidencial e o benefício de maiorias absolutas do PS.

Aliás, é com uma maioria absoluta que o actual PS anda a sonhar. Rui Rio acha que seria benéfico para o país? A sua crítica ao actual governo PS é tímida, "governa só para o curto-prazo", e passa por cima das cativações e da obsessão pelo défice, que estão na origem das falhas graves do Estado. Estas sim, seriam razões mais do que suficientes para apear este governo. 

 

Bastaram 13 anos para a política mudar mas poucos políticos acompanharam essa mudança. Bastaram 13 anos para a influência dos media tradicionais cair, a confiança nas instituições perder-se, a participação cívica começar a organizar-se.

Por isso vemos tantos políticos queixar-se do "populismo anti-partidos". Clarifiquem-se e reinventem-se.

 

Vale a pena rever o Expresso da Meia Noite de ontem, dia 5, em que se analisou o afastamento dos cidadãos da política e a cada vez menor identificação com os partidos.   

 

Irei apresentar a análise dos perfis dos candidatos na véspera do próximo debate, mas deixo já aqui uma mensagem para os militantes do PSD mais jovens:

Para escolherem o perfil mais adequado a um PM no séc. XXI, considerar estas palavras-chave: antecipação; equilíbrio; interacção; diversidade; complexidade; sustentabilidade; responsabilidade partilhada; participação cívica; cultura comunitária.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:11

A descodificação cultural da frase: "a vida não anda para trás"

Sábado, 25.11.17

 

  

O Grande Equívoco procurei descodificar a cultura política do actual governo. Não está lá tudo, como por exemplo, a mesma preocupação pueril de brilhar, de se apresentar como um sucesso, a marca do PS já desde o governo socrático.

É que a preparação laboriosa de um projecto ou de uma iniciativa, o da prevenção e segurança, todo esse trabalho que não se vê porque é suposto não se ver, precisamente porque é discreto, isso já não interessa.

Fui, no entanto, um pouco injusta com os partidos que o apoiam na AR. São territoriais, é um facto, têm um eleitorado mais urbano e sindicalizado, é um facto, mas deve-se à sua participação a possibilidade das pessoas e das famílias verem a devolução do que lhes foi retirado.

 

Reparem na resistência do PS a contar os anos de serviço anteriores ao governo-troika. Queriam limpar os anos do governo socrático. Reparem nas frases reveladoras da sua cultura política que não mudou com os acordos de esquerda: A vida não anda para trás... Pôs-se o cronómetro a andar... Não podemos voltar aos adquiridos... 

Pacheco Pereira descodifica esta cultura política na Quadratura do Círculo, como uma mentalização que nos tem sido transmitida desde o governo socrático, e depois no "vivemos acima das nossas possibilidades". Uma certa elite que quer manter o status quo. O que nos coloca numa certa ausência de perspectivas de futuro.

Há uma continuidade na mensagem que atravessa vários governos, porque o empobrecimento geral inicia-se no governo socrático. Por coincidência, Pacheco Pereira já o tinha percebido há 10 anos: "estão a empobrecer-nos".

 

A cultura é a mesma. Como disse Jerónimo: "Se o governo fosse de uma maioria PS e governasse sozinho não haveria estas devoluções." Concordo.

Deve-se, pois, ao BE e ao PCP as tais "preocupações sociais" de que o PS se quer vangloriar. Estivesse o PS a governar sozinho e teríamos de esperar pelo próximo governo. Centeno viria apresentar a contabilidade nas sessões parlamentares enquanto prepara a sua imagem de ministro virtuoso para o Eurogrupo.

Durante o governo anterior, o actual PM dizia que era preciso fazer finca-pé à Europa, não aceitar tudo, mas isso ficou na gaveta.

As cativações do ministro ilusionista não eram para fazer face a nenhum imprevisto que estivesse relacionado com uma emergência humana. Se fossem, as vítimas dos incêndios teriam sido de imediato apoiadas financeiramente, pois há muitas formas de obter esses valores posteriormente, das seguradoras e de outros mecanismos. O que vimos acontecer foi a ajuda mútua das populações, a nossa cultura comunitária.

 

A resistência a um equilíbrio social, querendo baixar o nível das expectativas legítimas porque no privado se ganha ainda pior, revela que a cultura das elites políticas não mudou nada. Em vez de se questionarem sobre a possibilidade de tornar o país economicamente viável para os seus habitantes, não, apenas se preocupam se o país é financeiramente viável para o Eurogrupo, a UE, o BCE, o FMI e as agências de rating.

E a maior parte do nosso patronato, os associados da CIP, em vez de se irem queixar a Bruxelas do OE2018 em relação à subida do salário mínimo, também se deviam questionar se uma empresa que não pode pagar o SM de 600 Euros é uma empresa viável. Na perspectiva de uma economia equilibrada e sustentável, não é. E nesse caso, deveriam sim ir queixar-se do preço insustentável da energia.

 

Exercício útil para as elites políticas, financeiras, administrativas, empresariais, e comentadores televisivos:

 

No dia 1 de Janeiro levantam da continha bancária a quantia de 600 - 66 (Seg. Social) = 534 Euros. Claro que as despesas debitadas pelo banco mensalmente, a vossa almofadinha, estão asseguradas, o que não acontece com a maior parte dos mortais a viver do SM. Os jovens mantêm-se na casa dos pais, por exemplo.

No dia 31 de Janeiro elaborem um pequeno relatório sobre a referida experiência, avaliando a baixa de expectativas numa escala de 1 a 10.

Finalmente, partilhem as vossas ideias, numa pequena exposição intitulada: como sobreviver com 534 Euros por mês quando não se tem uma almofadinha.

 

Este exercício já vos coloca algumas questões importantes sobre o equilíbrio social numa sociedade democrática.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:32

A tentar acompanhar tantos erros políticos...

Domingo, 05.11.17

 

 

É tão difícil acompanhar tantos erros políticos no país e na Europa, que nem dá para acompanhar o que se está a passar na América. Parece que as coisas também estão a fervilhar de erros por lá. Já para não falar nos riscos que todos corremos, entregues à loucura das lideranças mundiais...

 

É também com o coração nas mãos que olho para a nossa vizinha Espanha. Aí os erros políticos acumulam-se diariamente. Depois da violência policial da Guardia Civil sobre manifestantes em Barcelona, a prisão de membros do governo catalão.

E ainda pretendem levar por diante as eleições na região. A campanha eleitoral já deve ter começado, porque vi e ouvi um discurso muito estranho de Albert Rivera na TVE sobre "liberdade", imagine-se! O jovem político não percebe nada de democracia nem de psicologia social. Falar de liberdade com membros do governo presos? Iniciar uma campanha política para eleições sem as mínimas condições democráticas para o efeito? Não esperava esta alienação cultural num jovem político.

Os catalães têm de preencher este vazio na sua representação política, com políticos que não tenham equívocos ideológicos na cabeça nem sejam formatados pela lógica do poder. A lógica do poder não tem a mais elementar empatia e solidariedade humana, neste caso com os presos e com a sua comunidade ansiosa e dividida. Políticos que em vez de virem provocar esta comunidade em stress e insegurança, consigam ajudá-la a lidar com as divergências internas, trocar ideias, escolher objectivos e definir prioridades. 

 

Os catalães merecem melhores lideranças políticas. E para isso precisam de tempo e de um ambiente favorável, restaurando a democracia e a autonomia. Não vejo outro caminho.

Madrid restaurava a sua imagem internacional, mas também doméstica. Arrepiar caminho só pode ser feito pelo que detém o poder. Não perdia nada, antes pelo contrário, evitava uma instabilidade social que se reflecte na economia, e este é o argumento a que o poder é mais sensível, o financeiro.

E não esquecer a monarquia, que em vez de unir, dividiu mais profundamente, aliando-se à lógica do poder do governo de Rajoy. Até quando pensa a monarquia conseguir manter-se se não servir a unidade de Espanha? Unidade que tem de garantir respeito pelas diversas comunidades e incluir todos os cidadãos.

 

Entretanto a UE aliou-se à lógica justiceira espanhola, sancionando a prisão de membros de um governo eleito democraticamente numa região autónoma. A UE que nos vem interpelar nas redes sociais que é democrática, que quer ouvir os cidadãos europeus, etc. e tal.

Ficamos todos a saber que a UE não é regenerável por dentro, que as suas instituições são obsoletas e opacas, que não servem a democracia ou a justiça.

Justiça é a possibilidade de resolver conflitos sociais, não é agravá-los.

Justiça é a possibilidade civilizada de manter o equilíbrio social, não é desequilibrá-lo.

E a democracia é a forma de organização social o mais equilibrada possível.

 

Esta loucura visível em muitas lideranças políticas tem de fazer "pause" antes de fazer mais estragos, dar tempo e espaço para reflectir, para restaurar o equilíbrio perdido.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:19

Europeus que somos todos nós, precisamos de inspiração para antecipar desafios e resolvê-los da melhor forma para todos

Segunda-feira, 09.10.17

 

 

 

O sol nasceu cor de sangue do fumo dos incêndios florestais. Como se nada tivesse acontecido ao longo de todo o Verão, o crime continua a compensar neste país sem uma governação competente e responsável nas áreas fundamentais da Protecção civil e da Justiça.

E já nem vou referir a área básica da Segurança nacional...

 

O governo incha e faz voz grossa na sequência das Autárquicas, convencido de que ganhou credibilidade e legitimidade. Na verdade, as Autárquicas não provam nada disso, apenas provam escolhas acertadas de candidatos e de apoios de independentes.

Estas Autárquicas já trouxeram alguma mudança: uma tendência para uma maior participação dos munícipes no destino das suas freguesias e concelhos e nas grandes decisões a nível local.

Algumas maiorias absolutas dão lugar à negociação. Parece uma tendência para ficar.

O PSD segura-se no norte e no centro, apesar de algumas escolhas pouco felizes nas maiores cidades. Em Coimbra obtém um bom resultado pois escolheu uma boa equipa.

O CDS ganha fôlego a partir de Lisboa.

A CDU ganha fôlego em Lisboa e perde algum fôlego no Alentejo. Em Lisboa terá grande visibilidade, até porque escolheu um óptimo candidato.

O BE surge na vereação em lugares imprevistos.

O PAN esteve perto. Estou a pensar em Setúbal.

 

Nas minhas previsões dedutivas para 7 concelhos (Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Santarém e Setúbal), apenas acertei 57%.

Em Coimbra previ melhores resultados para os candidatos da coligação PSD/CDS/, etc. e dos Cidadãos por Coimbra.

Em Santarém calculei que o candidato do CDS conseguisse melhores resultados.

Em Setúbal previ melhores resultados para os candidatos do BE, PSD e PAN.

 

Os desafios são muitos e que todos consigam concretizar o essencial: a protecção das populações, a gestão inteligente do território, a economia, a qualidade de vida, a mobilidade, a ciência e tecnologia aplicadas aos recursos, energias limpas, a gestão da água, a habitação, a protecção ambiental, a agricultura biológica, o turismo sustentável.

 

O equilíbrio litoral - interior, em termos de investimento, não implica que o interior repita os erros do litoral.

A cultura megalómana de desenvolvimento de Medina em Lisboa não deve ser replicada pelo país fora. Exemplo: o turismo para ricos e famosos (unidades hoteleiras) e o turismo de massas (turismo de habitação em todo o lado), que inflaccionou os preços das rendas.

Um dos nossos melhores recursos é a diversidade: podemos escolher ruído ou silêncio, movimento ou sossego, auto-estradas ou caminhos, carros ou bicicletas, néons ou estrelas.

 

 

Aqui tão perto, os nossos amigos catalães também enfrentam um grande desafio.

Pensar que, se houvesse inteligência emocional e capacidade de antecipação na política espanhola, tudo teria ficado por um reforço da ideia de independência, um registo na agenda dos projectos a médio ou a longo-prazo da região...

Em vez disso, feriu-se o núcleo simbólico da sua autonomia, invadiu-se o seu território, usou-se a força policial contra a sua população e aumentou-se a fractura da comunidade.

O governo de Rajoy revelou os tiques autoritários que permanecem na cultura política de Espanha. Nada de surpreendente, se recuarmoa às investidas da polícia espanhola sobre manifestantes em Madrid, na sequência da crise financeira bancária, lembram-se? Agora foi em Barcelona.

E ainda por cima de tudo isto, de um conflito governo central - uma região autónoma, a pressão e chantagem da própria União Europeia. Uma linguagem do poder com que já estamos familiarizados em Portugal. E que os gregos aturam há já uma década.

 

Sim, europeus que somos todos nós, precisamos de toda a inspiração que nos surja de todas as fontes para enfrentar os desafios que nos aguardam e dos quais não podemos fugir. O melhor é antecipá-los e resolvê-los da melhor forma para todos.   

 

Uma semana inspirada é o que desejo a todos os Viajantes que por aqui passam. A inspiração será fundamental para enfrentar tantos desafios...

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:30

D. Manuel Martins, que a sua voz nos inspire a sintonizar a nossa consciência

Segunda-feira, 25.09.17

 

 

  

D. Manuel Martins, que a sua voz nos inspire a sintonizar a nossa consciência...

 

Num mundo e numa Europa que está a esquecer o valor essencial da vida, que exclui os mais frágeis, que se está a organizar para excluir todos os que não lhe servem nos seus objectivos imediatos de acumulação de riqueza.

As próprias lideranças políticas, dos partidos que se consideravam democratas, ao seguir a lógica financeira dos grandes bancos e das grandes empresas, perderam a credibilidade e, nalguns casos, estão a perder a legitimidade. Abriram as portas à alienação cultural política, à revolta mal dirigida, porque as pessoas se sentiram abandonadas e esquecidas.

 

Em breve veremos análises políticas a deformar as causas da presença de partidos não democratas nos parlamentos. Em breve ouviremos o impensável, que a razão desta desgraça europeia está na abertura aos refugisdos.

Nada mais errado e perverso. A razão é económica e está nas desigualdades sociais. Desigualdades sociais que os partidos que se consideram democratas ajudaram a criar e a reforçar, pressionados pela cultura financeira da União Europeia.

Desigualdades sociais que se reforçaram depois da austeridade e que agora se estão a organizar à volta do "trabalho alugado" à hora e da automação. É este o verdadeiro motor da actual propaganda pelo UBI (universal basic income). Propor aos cidadãos uma espécie de subsídio vital (para comer, pois não dará para se abrigar), a que chamam cinicamente de "dinheiro grátis", em troca da sua alma, ou seja, da sua razão para viver. Porque sem a dignidade da autonomia, da pertença a uma comunidade, o que resta a uma vida humana?

 

D. Manuel Martins sempre esteve atento a essa realidade cruel. Em Setúbal foi uma voz isolada a lembrar todos os abandonados e esquecidos no tempo do cavaquismo.

D. Manuel Martins sentia as "dores do mundo", mas não se ficava por aí. Erguia a sua voz, e mesmo quando o chamaram "bispo vermelho" não se importou, pois afinal "vermelho é o sangue", ou seja, o sangue que nos corre a todos nas veias, irmanados na mesma condição humana.

Esse foi o percurso de D. Manuel Martins, essa foi a razão da sua vida, essa foi a sua escolha da consciência.

E qual é a nossa?

Inspirados na sua voz, cada um no seu papel, podemos sintonizar a nossa consciência para o valor essencial da vida.

E o valor essencial da vida é a abertura cultural à diversidade, porque a vida é diversidade, não é uniformidade.

O valor essencial da vida é a descodificação cultural do preconceito, porque a vida não se estrutura segundo exclusividades selectivas. Um organismo morre se uma parte de si adoece e não é tratada. O mesmo serve para as células que se desorganizam ou para vasos sanguíneos que se cortam, etc.

A vida organiza-se na aceitação de todos e de cada um, porque a vida é interacção e equilíbrio.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:07

Autárquicas 2017: Coimbra, a cidade poética que pode ser uma plataforma europeia da reflexão sobre a ciência e tecnologia

Sexta-feira, 15.09.17

 

 

 

Percebe-se porque há uma insistência obsessiva em querer colocar Coimbra na corrida do conhecimento, como se a cidade tivesse de viver apenas para a sua universidade.

É verdade que Coimbra é, antes de tudo, a universidade mais antiga da península ibérica. A Santa Cruz medieval formou Santo António. A torre da universidade, a biblioteca joanina, a universidade velha são impressionantes.

A Sé Velha, a Sé Nova, o museu nacional Machado de Castro, o jardim botânico, o Seminário Maior e a sua capela, tudo nos envolve poeticamente. Do lado de lá do rio, espera-nos Santa Clara-a-Velha e o convento de Santa Clara.

Não esquecer a Baixa, que os turistas adoram, e voltamos a Santa Cruz, a igreja e, ao lado, o café e a sua esplanada. É aqui que vêm desembocar as ruas da baixinha, onde antes o pequeno comércio e o comércio tradicional tinham uma enorme vitalidade e agora apenas resistem com dificuldade. Esta decadência está a descaracterizar esta parte de Coimbra. Em breve estará ocupada por lojas de maior dimensão, mas sem alma, e por tasquinhas.

Se voltarmos a Santa Cruz temos duas opções: a rua da Sofia ou subir à praça da República. Na rua da Sofia, as suas igrejas e edifícios antigos. A caminho da praça da República, o jardim da Manga e a sua esplanada, o mercado, o elevador para a parte alta da cidade, e a avenida Sá da Bandeira com o seu jardim. Já a chegar à praça, o teatro Gil Vicente.

 

Coimbra não é apenas a sua universidade. É a sua universidade mais a sua história, mais o seu magnífico património, mais os seus poetas das serenatas, mais o seu pequeno comércio, mais o Mondego.

As margens do Mondego não têm sido valorizadas. O rio não é apenas para ser navegado, há parques onde antes as famílias vinham passear. Hoje as crianças acompanham os pais para o Forum ou para outras grandes superfícies.

 

O equilíbrio possível entre a ciência, a tecnologia de ponta e a filosofia, a história, é o grande trunfo de Coimbra. Disse bem. Hoje é tão necessário avançar na ciência como reflectir na sua aplicação. Vivemos dilemas actuais fundamentais para o futuro da nossa espécie. E porque não Coimbra a liderar essa reflexão filosófica quando tem experiência histórica? A sua especificidade é a possibilidade de uma ciência e tecnologia com consciência humana. Disse bem. Consciência humana. Porque já se fala da possibilidade de criar uma "consciência artificial". :)

 

Já me entusiasmei. Ponto da situação, autárquicas, debate. Vi o programa na RTP Play dias depois. Comentei no Twitter: "... os melhores projectos para Coimbra: Cidadãos por Coimbra, Jorge G. Monteiro, e PSD/CDS, etc, Jaime Ramos. Coimbra reclama uma mudança cultural."

Gostei particularmente do projecto Cidadãos por Coimbra, a minha escolha pessoal, pela sua abrangência e articulação entre as diversas áreas: habitação, economia, diversidade e equilíbrio social, abertura à participação cívica, cultura da colaboração e da comunidade, do acesso à qualidade de vida dos munícipes em geral, à possibilidade de fixar os jovens, um futuro equilibrado e sustentável. Uma cidade acolhedora para todos, apreciada e usufruída por todos.

Também considerei interessante a intervenção do candidato apoiado pelo PSD/CDS/MPT/PPM. Pareceu-me, no entanto, representar uma cultura elitista, que considera que o motor de uma cidade está centrado nos quadros qualificados. É certo que são um recurso que a cidade perde para outros países sobretudo, e que podem fixar-se se a cidade souber facilitar e promover condições económicas favoráveis. Mas há muitos outros recursos em Coimbra, que não passam pelas corridas alucinadas dos silicon valleys deste mundo. Coimbra pode, se quiser, colocar-se noutra plataforma, à escala europeia, a partir da sua sabedoria secular.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:38

Autárquicas 2017: Santarém, onde o passado merece um futuro equilibrado e sustentável

Sábado, 09.09.17

 

 

A aconpanhar as Autárquicas 2017, tenho descoberto o seguinte: muitos independentes apresentam-se apoiados por partidos; começam a surgir jovens com motivação pela intervenção cívica; os melhores candidatos podem surgir de um qualquer partido, da esquerda à direita; verifica-se uma melhoria na comunicação entre os candidatos, com menos agressividade; a diversidade cultural está presente, 

No Twitter, tenho comentado os debates, uns na hora, outros dias depois :) como este, de Santarém, que gravei: "... interessante intervenção de Rocha Pinto, o candidato do CDS. Colaboração funcional possível: CDS com PSD e CDU. ... a candidata do BE tem ideias e pode ser uma vereadora virada para o futuro. Precisa de melhorar a comunicação. ... recupero a conclusão, CDS para a câmara, e colaboração funcional com PSD e BE."

Esta recuperação da conclusão revelou-se necessária porque fui comentando no Twitter à medida que ia acompanhando o debate. Aprendi a lição: o tempo do Twitter é demasiado sincopado para revelar o essencial. Assim, o candidato da CDU acaba por perder relativamente à candidata do BE, isto é, a candidata foi revelando a pouco e pouco as suas ideias, cultura de base, interacção. E está virada para o futuro.

 

É com algum conforto de alma que me apercebo que nem todos os candidatos autárquicos sofrem da megalomania cultural que nos trouxe tantos prejuízos. Muitos revelam bom senso, o que é refrescante, noção clara de equilíbrio possível entre o passado (história, património, comércio tradicional, etc.) e o futuro (ciência, tecnologia, etc.), ideias inovadoras e sustentáveis para resolver problemas e melhorar a qualidade de vida dos munícipes e, em simultâneo, o desenvolvimento da região.

 

O candidato do CDS parece ser o melhor preparado para assumir a responsabilidade da câmara. É na sua intervenção, calma e bem artiiculada, que vemos como o passado e o futuro se podem aqui encontrar e conviver, com benefício mútuo.

Acessibilidades: reconhecimento desta forte vantagem de Santarém, com a auto-estrada e a ferrovia. Proposta interessante de deslocar apenas a estação ferroviária, "na mesma linha e na mesma cantenária", para perto da zona comercial do CNEMA, centro nacional de exposições, onde existem parques de estacionamento, e onde se poderia fazer uma zona intermodal colocando, também ali, a rodoviária. Além de ficar igualmente próxima do aeródromo.

Reconhecimento da necessidade de melhorar as acessibilidades das freguesias do norte do concelho, Alcanede e Amiais, com a correcção do traçado das estradas, por se tratar de um obstáculo que permitiu que "fugissem para" a Azambuja e Alcanena diversas empresas, quando Santarém tem "melhores acessibilidades e pavilhões vazios". A sua posição geográfica no centro do país, e ligado a tudo o que é vias de comunicação, permite-lhe vir a ser "uma plataforma logística do país."

Mobilidade dentro da cidade: proposta de um elevador mecânico que ligue as zonas superior e inferior do planalto. 

Turismo: de cariz religioso, como o Santuário do Santíssimo Milagre, o património religioso da época medieval, o museu diocesano, não valorizado, e que faria parte dos objectivos a curto-prazo, "para alavancar o emprego".

Habitação no centro histórico, com legislação que facilite a sua reabilitação. A partir daí, o pequeno comércio e o comércio tradicional vai-se reanimar.

Um parque da cidade no terreno onde se realizavam as feiras, a limpeza da cidade, cuidar dos jardins. Algumas "pequenas coisas" que fazem muito pela qualidade de vida dos munícipes.

 

Enquanto o candidato do PSD, actual presidente, refere, ufano, as startups, a candidata do BE privilegia as pessoas e alerta para a ausência de informação sobre o tipo de trabalho que desenvolvem e as suas condições. Embora o presidente insista que há informação disponível, todos sabemos que há ainda uma certa opacidade na cultura de base de muitas startups.

A obra feita centra-se essencialmente no investimento na escola prática de cavalaria, onde estão inseridos vários serviços, incluindo a Startup Santarém - centro de inovação empresarial, e obras no centro histórico da cidade.

Agora falta uma visão integrada e virada para o futuro que não passe apenas pela cultura do desenvolvimento economicista.

 

A candidata do BE revela, a pouco e pouco, ter ideias interessantes e viradas para o futuro, mas precisa de melhorar a sua comunicação. É quem refere a importância de envolver os munícipes através do orçamento participativo, uma cultura comunitária, o ambiente, as ciclovias, a agricultura biológica, o aproveitamento turístico equilibrado e sustentável da zona ribeirinha com caminhos pedonais. 

Por isso a considerei como uma vereadora que pode colaborar, de forma positiva, na definição de áreas e na opção de estratégias, de um futuro que privilegia a qualidade em vez da quantidade.    

 

Concluindo, o projecto mais inteligente, equilibrado e sustentável, é o do candidato do CDS, que revela, além disso, o perfil mais adequado a presidente de câmara, que desenha o futuro de forma integrada e perspectivando-o em várias fases.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:38

Autárquicas 2017: Lisboa, a cidade luminosa que resiste à misoginia política a que chamam "dinamismo económico"

Quinta-feira, 07.09.17

 

 

 

Debates dos candidatos à câmara de Lisboa, na SICN e na TVI24. O que estes debates revelaram é verdadeiramente surpreendente:

O candidato mais preparado para compreender e valorizar Lisboa é João Ferreira. Secundado pelo candidato Ricardo Robles, que define a habitação como prioridade, e pelas candidatas Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, que percebem o que está em causa, o equilíbrio e a sustentabilidade de uma cidade, e dos seus habitantes, que merecem melhor tratamento. E o candidato que pior lhe irá fazer, espero que não seja irreversível, é o actual presidente, Fernando Medina, e o seu "dinamismo económico".

 

Lisboa é uma cidade que sempre visualizei no feminino. Luminosa, acolhedora, versátil, sábia. Nem todos a compreendem mas todos a querem mudar e descaracterizar. Sem a compreender, como é que a podem valorizar? Lisboa resiste a esta misoginia política. A questão é: até quando?

 

Na mobilidade, um bom sistema de transportes públicos é fundamental para retirar pressão automóvel sobre o centro da cidade. O metro é o melhor transporte em rapidez, frequência, comodidade. Todos percebem isto. Mas, como João Ferreira demonstra num discurso bem articulado, se o preço do bilhete é superior à utilização do carro, como se motivam as pessoas a não utilizar o carro na cidade?

Também demonstrou que a ideia de uma linha circular pela periferia da cidade só vai piorar a acessibilidade da periferia ao centro, pois os utilizadores terão de fazer transbordo. É fácil de perceber. E sabem quanto estão a pensar investir nessa obra inútil? 12 milhões, foi o que percebi. Desconfio que será bem mais do que isso.

Lisboa, Lisboa...

 

A pressão do turismo sobre a habitação, outro desafio. A cultura dos vistos gold e o actual deslumbramento com o turismo de massas e de hotéis para ricos, está a empurrar os residentes do centro para a periferia. O preço das casas torna-se incomportável, o mercado de arrendamento segue a curva ascendente, e lá vai parte da alma lisboeta para onde não incomode. E o que irá acontecer ao comércio tradicional?

Aqui João Ferreira é secundado por Ricardo Robles, que se entusiasma com este desafio. É possível evitar a especulação imobiliária.

 

A pressão do turismo sobre o centro da cidade foi bem explicado por João Ferreira. A solução é diversificar o turismo por diversos pontos da cidade.

Visualizei o Terreito do Paço invadido por multidões de turistas a sair de embarcações de cruzeiro, a desembocar na Baixa e no Chiado, no Castelo e em Alfama, numa azáfama colorida e ruidosa, e estremeci. É essa a Lisboa de Medina.

Lojas que se transformam em formas de vender artefactos de gosto duvidoso que desfiguram a alma de Lisboa. A sua cultura antiga, de muitas camadas, que se vai revelando a pouco e pouco, nas ruas empedradas, nos azulejos que ainda não roubaram, nos vestígios que permanecem, nos jardins, nas praças, nas escadinhas, nos elevadores eléctricos, nos miradouros, nas igrejas, nos museusnos teatros, nas livrarias.

E depois, a Lisboa da ciência. Os laboratórios, os anfiteatros, os armários de madeira, como eram inovadores e poéticos.

A Lisboa da botânica, a Lisboa da geologia, a Lisboa das descobertas, curiosa e inteligente.

E também a Lisboa da cerâmica, do azulejo, da arte sacra, do mobiliário.

Não, não esqueci a Lisboa do fado. Há um turismo exclusivo do fado.

 

Há muitas camadas em Lisboa. A Lisboa dos palácios reais, magnífica e sumptuosa, num país falido. Este contraste é, ele próprio, didáctico.

Assim como a Lisboa burguesa estrangeirada, vaidosa, decadente e fútil, tão bem retratada em Eça, mas que não desejaríamos replicar.

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:08

O equilíbrio na doçaria

Segunda-feira, 02.05.16

 

A doçaria da Beira Baixa a que fui habituada na infância era perfeita no equilíbrio entre o doce e o amargo, o seco e o fofo. Os biscoitos, o pão de ló, o bolo de canela, o bolo de mel, o bolo de festas, as filhozes. O sabor perfeito a que eu chamo a poesia doce. A minha avó materna e as minhas tias paternas eram verdadeiras artistas.

E havia a doçaria da Fernanda, os bolos da Beatriz, os bolos da fábrica da Figueira da Foz.

 

Mais tarde provei doçaria conventual e notei o exagero na quantidade de açúcar. Fiquei, no entanto, encantada com os pastéis de Tentúgal (que ganhariam em baixar a quantidade de açúcar no recheio de gemas de ovo), os pastéis de Santa Clara, os ovos moles de Aveiro, as queijadas de Sintra.

 

Há um encantamento geral pelos pastéis de nata e pelos pastéis de Belém. Mas quem, como eu, provou um pastel de nata, de nata mesmo, a cor e o sabor da nata, como fazia a Beatriz, nunca mais se consolará com qualquer outro. Tenho tentado reproduzir a fórmula perfeita da massa e do recheio desses pastéis de nata da infância sem qualquer sucesso. Mas ainda não desisti.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:06








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